Texto do dia: Às vezes

22 jan

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Eu sempre tive muito medo da palavra “às vezes”. Aquele mesmo medo de quando minha mãe ia à escola pegar minhas notas e conversava com as professoras sobre o meu comportamento. A ansiedade me matava a chineladas. Eu sabia que não morreria pelas avaliações, mas apanharia pela observação do boletim: “Ótimas notas. Porém, o aluno deve calar a MATRACA durante as aulas.” Quem sabe falar nunca precisou de boca. Quem ama nunca vai precisar pedir licença para entrar. Quem sabe do que eu estou falando, no mínimo já deve ter sido chamado de abusado algum dia.
Todos os anos eu fazia uma lista antes do final do ano e planejava minhas ações para o ano seguinte. Para tu teres uma ideia, eu ainda não concluí alguns planos de 2009. Não por preguiça, mas porque a vida nos transforma. Arquitetamos planos e nos esquecemos de que, com o tempo, eles vão se solidificando ou se diluindo nas vivências. É como desejarmos passar lápis branco em uma folha de desenho. Não dá! Não pinta! Não vai colorir a vida. Aprendi a simplificar, arrumar o meu norte e focar nas prioridades. Fui percebendo que a ideia não é largarmos tudo e fixarmos no ponto almejado, é aproveitarmos o caminho até chegarmos lá. Fui percebendo que vida não é feita só de continuidades. O “para sempre” que o outro te diz, geralmente nunca é o mesmo teu. Teus familiares podem estar certos; Podem. Tua mãe não conhece teu coração melhor que tu mesmo. Teu melhor amigo poderá ser melhor que o teu pai. O caminho sempre vai ser melhor que o destino final. Ao longo dele, encontramos pessoas que levaremos para o resto de nossas vidas em nossa mochila. São fragmentos memoráveis, horcruxes que deixamos em cada espaço que um dia habitamos.
Na sexta-feira, ao finalizar uma internação, a familiar de uma paciente em estado terminal me presenteou com a seguinte situação: “Eu sei que a mãe está morrendo, sabe? Mas o que mais me conforta são as palavras dela: – ’Vou morrer feliz, minha filha. Mamãe viveu da maneira como desejou viver.’.” Tem vezes, moço, que ela fica parada, olhando pro teto e sorrindo. Conversa com pessoas já falecidas. Ainda na semana passada, dizia estar conversando com a minha avó e ficava repetindo a frase: – “Falta pouco, meu coração. Já já estou em casa.” Acho que ela não vai demorar muito para partir.
O Momento é o irmão mais velho do Às vezes. Às vezes a vida nos traz pessoas que não ficam conosco por muito tempo, vão embora antes do sol dar bom dia. Porém, precisamos conhecê-las para, muitas vezes, passarmos a nos conhecermos melhor, ajustarmos nossos controles e pontuarmos aquelas histórias que ainda se mantiam em reticências. É a oportunidade de um emprego ruim virar uma mochila de experiências, um namoro sem felicidade ganhar a busca pela motivação. A vida é feita do às vezes. Às vezes vai dar, às vezes não vai rolar. Mas o barato é este: juntarmos tudo, vivermos o mundo e almejarmos a vista da lua pela janela do quarto. Tudo isso para chegarmos ao final com a sensação no peito de valeu a pena a caminhada. Sabendo que voltaremos para casa, mais feliz de quando chegamos.

Por Guilherme Pintto

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2 Respostas to “Texto do dia: Às vezes”

  1. marielfernandes 23 de janeiro de 2014 às 12:24 AM #

    Também gostei do texto, como sempre. Viu? Como sempre é diferente de às vezes.

  2. madricousins 23 de janeiro de 2014 às 12:02 AM #

    Adorei o texto!!!!!
    Flor tem uma tag lá no blog, era para chamar 11 blogueiras, mas faz a TAG tbm? Pq na hora esquecemos de marcar seu blog, mas amamos ele e gostariamos que vc fizesse se fosse possível!!!!
    Beijoss
    http://madricousins.wordpress.com/

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